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Visão Política

Porque a política têm que ser feita de verdades!

Visão Política

Porque a política têm que ser feita de verdades!

31.Out.20

“Poder é a produção de efeitos desejados” – Bertrand Russell

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A conceituação mais curta, concisa e abrangente de poder é de Bertrand Russell: poder é a produção de efeitos desejados.  Poder, portanto, seria a capacidade de o indivíduo produzir os efeitos que deseja; ausência de poder ou pouco poder seria a incapacidade de produzir os efeitos que se desejam.

O ser humano, portanto, está, desde o nascimento voltado para a descoberta e uso dos meios, mediante os quais produz os efeitos que deseja. O bebé ao chorar de fome está engajado na sua luta por poder, para provocar na mãe a atitude de lhe oferecer o seio para mamar; ou pelo choro provocar alguém a secar a fralda molhada.

A realização dos efeitos desejados vai exigir, portanto, que sejam usados os recursos materiais, humanos e intelectuais competentes e suficientes para alcançar os efeitos (objetivos) desejados. Podem esses recursos ser materializados como bens, moedas, preciosidades que permitem produzir e colocar ao alcance de quem os possui os efeitos (objetivos) desejados.

Aliás, recursos materiais valiosos no mercado podem ser encarados como reservas de poder acumuladas para uso na produção dos efeitos desejados. Como tal indivíduos com ‘tesouros’ (bens acumulados) serão indivíduos potencialmente poderosos.

De forma análoga, indivíduos que detém a capacidade de impor pelo uso da força, ameaça, punições e de produzir em outros indivíduos os efeitos que temem, evitam por medo, receiam, podem produzir para si mesmos os efeitos que desejam.

Nesta última situação chegamos ao poder que, numa escala social chamamos de poder político. Poder político é o poder do homem sobre o homem, seja ele revestido de legitimidade – quando a hierarquia de poder é aceita pelo subordinado; ou sem legitimidade: quando a hierarquia é imposta pela força e coerção e pelos riscos associados à recusa de a ele se submeter.

Poder, portanto, é o conceito chave da política, como ciência e como prática. O poder do homem sobre o homem, é sempre odioso. Por isso na vida social é necessário estabelecer regras, direitos, limites, prazos em suma critérios de legitimidade no uso do poder para que a vida em sociedade seja ordenada e pacífica.

O poder político sobre uma sociedade só se justifica por que se refere a uma situação que é aceite para que possam ser viabilizados objetivos humanos mais valiosos e complexos que são insuscetíveis de serem realizados individualmente.

Aristóteles definia que:

A vida famíliar tinha como finalidade a mera vida;
A vida na vila, clã, tribo cuja finalidade era a vida social;
A vida na polis cuja finalidade era a boa vida (perfeita).

A Pólis era a finalidade para a qual o ser humano estava destinado; a associação suprema, autónoma e independente (autarkéia) que se destina a satisfazer as necessidades mais elevadas de natureza espiritual e política, a eudaimonia, a boa vida, o supremo bem humano que só na vida da pólis poderia ser alcançada.

Foi por esses significados, exclusivos da vida na polis e ao ser humano que Aristóteles definiu o homem como zoon politikon – um animal político.

Desde os gregos a relação entre a pólis e o cidadão acompanha a nossa civilização. Impossível dissociar um do outro. Ela corresponde à relação do todo com a parte, na qual o todo é superior à parte, mas também na qual o cidadão é o todo parcialmente.

“Ser pertencido por” e participar da vida da polis davam ao homem grego segurança, raízes e uma estrutura onde se situar. A intensidade desta relação (cidadão/polis) explica a recusa de Sócrates a fugir de Atenas para evitar sua execução:

Sem Atenas sou apenas Sócrates, o filho de Sofronisco, em Atenas sou Sócrates o ateniense; assim como fugirá Aristóteles, da mesma Atenas embora meteco de Stagira, com a irónica explicação:
“fugia para não permitir que Atenas cometesse mais um crime contra a filosofia”.

Poder é, pois, o conceito central da teoria, da ciência e da prática política. Poder é acumulável, mas também pode rapidamente se esvair; poder é transferível em tese, mas é sempre um procedimento muito arriscado; poder pode ser aceite, tolerado ou rejeitado; em todos esses casos haverá custos e perdas; pode depender de feitos extraordinários, de pessoas extraordinárias ou de pessoas comuns…

Poder existe para ser usado; usado para produzir efeitos desejados; mas também pode ser mal-usado e esvair-se por entre os dedos por incompetência política. Poder, por fim, é um estigma. Quem quiser governar, dele dependerá, mas passará a depender do uso inteligente que dele é capaz de fazer.

- Pedro Silva

 

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