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Visão Política

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ESPECIAL ELEIÇÕES

30.Nov.20

Opinião | Bloco Central

Recebo perguntas de muita gente, incluíndo companheiros de partido, que questionam a razão de eu, e muitos como eu, descartarmos categoricamente uma possível coligação com o PS, o chamado Bloco Central, e a razão de defender um PSD com uma linha menos centrista, menos exclusivamente social democrata, e mais abrangente no espaço da direita.

A todos os curiosos, cá fica a minha resposta:

Se é verdade que a orientação de Sá Carneiro se mostra social-democrata, é também verdade que os acontecimentos históricos sempre levaram o PSD a tomar uma posição de liderança no espaço da direita. Recuemos no tempo para analisar alguns factos. Em 1974, quando o PPD foi fundado por três visionários-tendo recebido o apoio de tantos outros-que sempre definiram um caminho para Portugal seguindo o modelo europeu ocidental: uma economia livre, em que o estado promove sempre a igualdade de oportunidades e combate as desigualdades em excesso. Esse modelo, que marcou a Europa a partir da Segunda Guerra Mundial, promovia uma convivência entre um estado social forte e uma economia produtiva, livre e democrática, em que todos plantam as sementes da liberdade e recolhem os frutos do trabalho, adubados pelo meio por um estado social que não se esquece que nem todos nascem com as mesmas condições. Este modelo, na Europa, já não tem a mesma força que outrora teve, devido principalmente ao surgimento de potências que antes ninguém via sequer como países, mas esse assunto fica para outra conversa.

Nessa altura, podia até ser o nosso objetivo governar ao centro, suportando forças com o Partido Socialista, numa coligação de centro, moderada, que combatia tanto os perigos dos que ainda sonhavam em voltar a um modelo conservador autoritário decadente e sem sucesso, como os revolucionários que sonhavam ser uma ditadura comunista à semelhança do modelo Soviético. Esse Bloco Central, suportado no objetivo da defesa da democracia, reforça-se com o apoio do PS à Contra-Revolução de 25 de novembro de 1975, quando o PS se coloca do lado da defesa da democracia, impedindo que Portugal se tornasse num país de Leste em pleno Ocidente. A ideia de Bloco Central persistia até 1979, quando, após tantas recusas do PS de Mário Soares, que preferia governar sozinho (mesmo sem maioria absoluta), ou com o apoio, veja-se, do CDS. Ora 1979 marcou o início de um novo PSD, que virava costas a um PS mais preocupado com os seus interesses do que com a governação estável do país. A Aliança Democrática em 1979 mostrou que para garantir a estabilidade governativa e a democracia em Portugal tinhamos de virar à direita, neste caso, proceder a entendimentos com o CDS e o PPM. Isto não significava, no entanto, que a nossa génese social democrata se tinha perdido. Simplesmente não era o que muitos tinham pensado-e que tantos outros ainda pensam hoje em dia; era uma social democracia com mais simpatia pela liberdade do que pela sociedade sem classes; com mais simpatia pelo povo do que pelo estado; com mais simpatia pelo pequeno e médio empresário local e regional do que pelas grandes empresas companheiras do estado. E acima de tudo, nasce um novo PSD, pronto a acolher todos os que acreditam em valores de liberdade e progresso, mas também de valores e princípios. Um PSD virado do centro para a direita, e não virado do centro para a esquerda, como muitos o viam até agora.

A ideia de Bloco Central só se viria a concretizar entre 1983 e 1985, quando Mota Pinto e Mário Soares formaram um acordo. Esse acordo chegou ao fim quando Cavaco Silva percebeu que o PSD tinha possibilidade de governar sozinho, e de concretizar um projeto próprio para o PSD. O que se seguiu, já todos conhecemos. Um período de independência do PSD, que governou sozinho graças a uma inovação no discurso político do PSD: um discurso virado para a resolução dos problemas do povo, e para o desenvolvimento do país, semelhante ao de Sá Carneiro.

Aqui percebemos que não há qualquer razão para explorarmos um Bloco Central; em 1979 não foi a solução que prosperou, em 1985 também não, e durante 10 anos o PSD conduziu o país sozinho, com um esmagador apoio dos portugueses. Em 1987 e 1991 Cavaco Silva conquistou duas das três maiorias absolutas que Portugal teve, e as duas mais expressivas maiorias alguma vez obtidas. Este caminho, de independência ao PS, e de abandono das ideias de Bloco Central e a sua natureza não Socialista, conduziram o PSD a uma identidade de centro direita. Negar essa identidade é negar que somos uma alternativa ao PS, como fomos em 1979, 1985, 2002 e 2011.

- João Valor

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