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Visão Política

Porque a política têm que ser feita de verdades!

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23.Ago.20

Como pensar a política? A analogia mecânica

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Somente com o fim da Idade Média e com o desenvolvimento de invenções e inovações tecnológicas, modelos mecânicos passaram a ser usados para descrever o mundo e as relações sociais.

 

Talvez não haja texto mais emblemático, desta nova visão da natureza, que o escrito por William Harvey, anatomista inglês que, por primeiro, descobriu o funcionamento da circulação do sangue no corpo humano.

Harvey escreveu o seu célebre texto em 1628, alguns anos após Galileo descobrir os satélites de Júpiter, Francis Bacon escrever sobre o “Avanço da aprendizagem”, alguns anos antes de Descartes escrever o seu “Discurso sobre o método”. Neste mesmo período morria Shekspeare, Rembrant pintava uma das suas obras mestras, “Lição de anatomia”, e Bernini reformava o Vaticano.

Nesta época de invenções e descobertas, Harvey escreve “Ensaio sobre os movimentos do coração e do sangue”, onde, em resumo, dizia que “o coração é uma bomba“.

 

PRIMEIRO O AURÍCULO CONTRAI-SE, E, ENQUANTO SE CONTRAI LANÇA O SANGUE NO VENTRÍCULO, O QUAL, QUANDO FICA CHEIO, FAZ COM QUE AS FIBRAS DO CORAÇÃO SE TENSIONEM E REALIZEM UMA BATIDA, POR MEIO DA QUAL O SANGUE É IMEDIATAMENTE ENVIADO PARA AS ARTÉRIAS, SENDO QUE O VENTRÍCULO DIREITO ENVIA A SUA CARGA PARA OS PULMÕES PELO VASO QUE É CHAMADO DE VEIA ARTERIOSA, A QUAL, POR SUA ESTRUTURA E FUNÇÃO, É UMA ARTÉRIA; E O VENTRÍCULO ESQUERDO ENVIA A SUA CARGA PARA A AORTA, E, ATRAVÉS DELA PARA AS ARTÉRIAS DE TODO O CORPO. ESTES DOIS MOVIMENTOS, DOS VENTRÍCULOS E DOS AURÍCULOS, OCORREM CONSECUTIVAMENTE, MAS DE TAL FORMA QUE (…) APENAS UM MOVIMENTO É PERCEBIDO. NÃO É POR OUTRA RAZÃO QUE PODE SER VISTO COMO UMA PEÇA DE UMA MÁQUINA, NA QUAL EMBORA O MOVIMENTO DE UMA ENGRENAGEM DÊ ORIGEM AO DE OUTRA, TODAS ELAS PARECEM MOVER-SE SIMULTANEAMENTE.

 

Harvey prefacia o relato das suas descobertas, ao Colégio Real de Médicos da Inglaterra, com cautelosas observações sobre o amor à verdade, sobre a obra dos antigos, que pode e deve ser levada adiante por novas descobertas: 

 

POIS O VERDADEIRO FILÓSOFO, AQUELE QUE AMA A VERDADE E O CONHECIMENTO, NÃO ADMITEM ESTAR COMPLETA E TOTALMENTE INFORMADOS SOBRE UMA MATÉRIA, QUE NÃO POSSAM DAR AS BOAS VINDAS A NOVAS INFORMAÇÕES, VENHAM DE ONDE VIERAM E DE QUEM VIEREM; TAMPOUCO ADMITEM ELES QUE QUALQUER DAS ARTES E CIÊNCIAS, TRANSMITIDAS A NÓS PELOS ANTIGOS, ENCONTRA-SE EM TAL GRAU DE COMPLETUDE E ATUALIDADE QUE NADA MAIS RESTA A DESCOBRIR PELA ENGENHOSIDADE E ESFORÇO DE OUTROS. MUITOS, AO CONTRÁRIO, SUSTENTAM QUE TUDO QUE SABEMOS É INFINITAMENTE MENOR DO QUE O QUE AQUILO QUE É AINDA DESCONHECIDO.

 

Como Darwin, dois séculos mais tarde, Harvey teme a reação dos conservadores, que viam qualquer mudança no conhecimento científico como uma ameaça às instituições e à religião. E como Darwin, Harvey não estava a fazer pouco. Ele estava dessacralizando o órgão mais nobre do corpo humano, a sede da sensibilidade e dos sentimentos, o misterioso coração, território tornado sagrado pela religião, pelo amor, pelos sentimentos mais fortes do ser humano, que, segundo ele argüia, devia ser visto, prosaicamente, como uma “bomba” que impulsionava o sangue por todo o corpo.

O modelo que o “mecanismo” proporcionava, para descrever a natureza e as relações sociais, opunha-se frontalmente, como se vê, ao modelo proporcionado pelo conceito de “organismo”. As noções de mudança irreversível, crescimento, evolução, e de propósito inato – todas elas essenciais para o “organismo”, nele não tinham lugar.

 

Um mecanismo implicava a noção de que o todo era completa e totalmente igual à soma das suas partes. Que não importando o número de vezes em que fosse desmontado e refeito, continuaria a comportar-se de maneira exatamente igual à anterior.

 

Mais ainda, não importava também a ordem em que a desmontagem ocorria e que a remontagem se fazia. Finalmente, as partes podiam, em caso de necessidade, ser substituídas e trocadas por outras iguais, e o mecanismo continuaria a funcionar.

 

Dentro desta concepção, a organização política seria o produto de um “grande artesão”, que combinava elementos imutáveis da vida social (as partes, peças), de forma a que dessem origem a um todo articulado e operacional. Como decorrência desta visão, a sociedade não seria mais vista como uma realidade viva, com memória, tradição, hábitos e costumes.

 

Ao contrário, a sociedade (e a política) possuía uma plasticidade que permitia moldá-la, desde que se encontrassem os elementos básicos e imutáveis que a constituem, e que se os montasse de maneira a construir um todo harmônico e operacional. A organização política passava a ser uma construção de um cérebro inventor, não mais uma realidade histórica em evolução, e não mais um organismo.

 

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