O Padrão do Racismo

Para quem está atento às redes sociais e aos constantes reboliços que vão surgindo, fruto da interacção entre pessoas com as mais diversas posições políticas, já está familiarizado com a mais recente polémica: O padrão dos descobrimentos é um monumento que, na sua natureza colonialista, é racista. Como tal, alguns clamam pela destruição do mesmo.

Classificar um monumento de “racista” é algo que me faz alguma comichão. Ora, não obstante o passado e a inspiração colonialista por detrás da construção, destruir um monumento não deverá ser considerado uma posição “antirracista”. Assim como mantê-lo erguido não pode ser considerado o oposto.

Não podemos apagar a história. De facto, Portugal deteve, outrora, um dos maiores impérios coloniais do mundo. Tal resultou da escravatura e subjugação dos outros povos. No entanto, há que analisar toda a conjuntura histórica. Todas as grandes potências mundiais utilizaram a escravatura como um meio para atingir um fim. Portugal foi o primeiro país do mundo a abolir a mesma. Isto demonstra uma evolução positiva da sociedade portuguesa, que quando enfrentada com novas ideias e mentalidades, mudou o seu posicionamento face a este assunto.

Obras ou construções que sejam uma forma de manifestação artística, podem carregar fortes cargas ideológicas, como é o caso do padrão dos descobrimentos. Mesmo que este represente uma altura onde a nossa sociedade era menos enlightened, não significa que deva ser demolido. Exatamente devido a este passado colonial é que o Padrão tem de continuar a existir. Se esquecermos a história estamos condenados a repeti-la. Os campos de concentração de Auschwitz-Birkenau não foram demolidos. Foram tornados num sítio (que acaba por ser uma atração turística) que serve exatamente para relembrar o passado: relembrar as atrocidades cometidas para que estas não sejam repetidas. Portugal não é racista (nem imperialista) por manter monumentos que aludem a este período de tempo.

Seguindo esta lógica, teríamos que destruir grande parte dos marcos históricos dos descobrimentos. O mosteiro dos jerónimos, construído com o seu tema marítimo, característico do estilo manuelino, tem vários elementos que fazem alusão ao período imperialista português. A construção da ponte 25 de Abril, que continua a ser a mais utilizada forma de ligação entre lisboa e a margem sul, foi ordenada pelo nosso ditador. Vamos destruí-la? Não, pois tal não teria qualquer lógica e implicaria uma despesa de milhões de euros ao nosso governo. O museu do combatente, que honra as vidas dos soldados portugueses que faleceram na guerra do ultramar, deverá ser demolido, ou recondicionado? Não. Soldados cumprem ordens. Independentemente dos motivos da guerra colonial é de extrema importância que esta altura seja relembrada e que exista pelo menos uma forma de honrar os milhares de homens portugueses que deram a sua vida pela pátria.

O Padrão dos descobrimentos honra a memória de Infante D. Henrique e de todos os Portugueses que impulsionaram a exploração marítima, essencial para a nossa evolução. Faço novamente referência à conjuntura mencionada anteriormente: hoje em dia, mais informados e cultos, é fácil denegrir o papel de figuras como o supracitado Infante. No entanto, se tivéssemos nascido na época em causa, seríamos certamente a favor da exploração marítima, não entendendo as consequências que tal traria.

Vergonhoso era se, em pleno século XXI, mantivéssemos a mesma postura. Se tivéssemos nascido em 1933, o mais provável era que pertencêssemos à mocidade portuguesa, mais uma vez sem compreender a carga ideológica de tal posição.

Dentro do monumento existem salas de exposições que nos transportam para o século XV e XVI, honrando o passado das figuras históricas, mas também evidenciando as barbaridades que hoje em dia consideramos imperdoáveis. Museus, monumentos ou obras artísticas, mesmo que representem um passado sombrio, têm um papel crucial: consciencializar a população sobre os erros do passado.

Quem esquece a história, está condenado a repeti-la.

Destruir o padrão dos descobrimentos não resultará em nenhuma mudança social. É apenas mais um assunto alvo de escusada polémica nas redes sociais, para ocupar as pessoas mais preocupadas em demolir um monumento com 71 anos, do que com as violações às liberdades individuais cometidas pelo governo, em termos a maior carga fiscal de sempre, ou quase 135% de dívida pública. Teria muito gosto em que esta atenção fosse redirecionada para assuntos pertinentes, onde, de facto, deveria existir revolta popular.

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