Conservadorismo e moderação em tempos confusos, e posicionamentos conservadores

A moderação tem sido apresentada como um valor indispensável nos últimos tempos, em contraste com o radicalismo próprio das ideias em ascensão, tanto de uma direita reacionária próxima do fascismo, como de uma esquerda libertária e identitária. Estes dois programas políticos, surgidos nas últimas décadas, representam a reformulação do espaço político, uma reconfiguração do mesmo, e um perigo à democracia. Ambas defendem um modelo de sociedade que não faz qualquer sentido e que está muito longe do que, na minha opinião, deve ser uma sociedade saudável. Falo destes dois extremos, mas também faço uma breve e superficial reflexão sobre a importância da demarcação do espaço moderado e do tipo de ação que pode levar a uma salvação da democracia liberal e do respeito pela Liberdade neste contexto.

Imigração, ambiente, modelo económico, sociedade e luta de classes têm sido os temas que mais têm rasgado diferenças entre a direita reacionária e a esquerda libertária. Há, no entanto, semelhanças entre estes dois nocivos caminhos políticos: ambos são antiliberais e ambos são populistas, ambos são igualmente piores para a democracia.
Enquanto conservador, sou um moderado; o papel do conservador, mais que nunca, tornou-se o papel de defender não tradições, mas sim os valores da democracia e da liberdade, da responsabilidade e da integridade, da honestidade, e, acima de tudo, da moderação. O conservador é aquele que acredita que quem está no poder raramente tem boas intenções, e, em consequência, devemos sempre limitar o poder de quem o está a exercer, para que o indivíduo não seja anulado em nome da elite que está a decidir os caminhos da nação. O conservador é moderado porque é cético; não cético no sentido de não acreditar na chuva, mas cético por valorizar o hábito ao invés da aventura. Desse modo, entende que devemos sempre procurar o que já existe, porque o que existe é uma garantia. Isto, no entanto, e ao contrário do que defende a direita reacionária e a esquerda libertária, não significa que estejamos a procurar manter um status quo, ou um sistema; significa que as mudanças que imprimimos na sociedade são mais cautelosas e pensadas, mais trabalhadas e passaram por um processo de engenharia mais detalhado. O conservador acredita no poder da economia de mercado; não na economia das grandes empresas, mas na economia que valoriza o indivíduo e a propriedade como prémio pelo esforço do indivíduo, e na separação de poderes como único meio para garantir que não há usurpação da liberdade.

Agora, abordar um pouco as diferenças entre direita reacionária e esquerda libertária, bem como o papel do conservador no meio destas lutas.

Imigração:

Este é um dos temas que mais tem separado os dois lados. O lado da direita defende que devemos fechar os países em si mesmos, para impedir que haja contaminação dos nativos, os ‘melhores’. O oposto esquerdo defende que devemos estar abertos a tudo, e construir uma sociedade multicultural. O que defende o conservador? O conservador defende que: é difícil retornar ao isolamento, mas que é igualmente difícil termos uma sociedade multicultural em que as diferenças entre as culturas sejam totalmente esbatidas. Em consequência, opta por manter as culturas separadas mas em contacto, ou seja, podem circular livremente entre si, mas sem se confundirem.

Ambiente:

Um tema que está constantemente em cima da mesa. Tem polarizado mais uma vez o debate entre os dois polos; a direita reacionária defende que não está a decorrer nenhum processo de aquecimento global por consequência dos atos do Homem, e o que acontece nada mais é do que a Natureza a desenrolar os seus processos naturais. A esquerda libertária defende que o aquecimento global é uma realidade provocada pelos comportamentos Humanos desde a Revolução Industrial, e que o único modo de impedir o colapso do planeta é mudar de imediato para uma economia planificada.

O conservador acha que a economia planificada pouco ou nada tem a ver com ecologia, porque economia e ecologia são conceitos diferentes, mas que a poluição, nem que não seja pelo facto de ter inúmeras consequências na saúde das pessoas, deve ser diminuída.

Economia:

Aqui encontra-se uma diferença estruturante que realmente mostra quem defende a liberdade e a igualdade. A direita reacionária defende que o estado deve controlar a produção, mas não os meios de produção, ou seja, o estado deve ter um papel muito interventivo no que toca ao que se produz, mas deve delegar a tarefa de gestão e propriedade dos meios de produção num conjunto de indivíduos ou grupos próximos do governo, que formam grandes corporações. A esquerda libertária defende que o estado deve controlar produção e meios de produção, colocando a gestão dos mesmos diretamente a seu cargo. Estes dois modelos criam uma economia extremamente centralizada, que em nada serve os propósitos do indivíduo. O conservador, por outro lado, defende que a economia deve ser livre, e que o estado deve apenas intervir para evitar monopólios e para garantir que o número mínimo de pessoas vive de forma muito má. O conservador, é no entanto, o mais justo e realista. O mais justo, porque ao contrário da direita reacionária não promove elites próximas ao regime, e mais realista, porque entende que as pessoas não podem, nem devem ter todas o mesmo rendimento.

Sociedade:

A sociedade é outro ponto de importante diferença entre conservadores, direita reacionária e esquerda libertária. A direita reacionária considera que se deve construir uma sociedade tradicionalista, semelhante à do século XIX, em que o homem tem um papel dominante no rumo e nas decisões da família, e em que a mulher se dedica à casa e aos descendentes da família. Por outro lado, defende a supremacia dos nacionais face aos estrangeiros e uma forte disciplina moral. A esquerda libertária defende que os estrangeiros devem ser tratados tão bem ou melhor que os nacionais, porque os nacionais em tempos passados trataram mal os estrangeiros. Defende uma inversão da relação Homem-Mulher, em que a mulher se deve libertar totalmente do homem. O conservador, mais moderado, entende que a mulher não precisa de voltar a um estado de submissão ao homem, mas que deve procurar manter-se a par da criação dos filhos, pois tem mais competência para o efeito que o homem, não devendo, no entanto, o homem descartar responsabilidades nesta matéria. Por outro lado, o conservador acredita que construir sociedades só para um grupo de pessoas não funciona, e que pagar pelos erros dos nossos antepassados é tão sensato como atirar-se a uma fogueira porque o vizinho o fez. A lição que devemos aprender com a história não é a da compensação pelos erros passados, mas sim a da não repetição desses erros.

Luta de classes:

A luta de classes é talvez o ponto onde encontramos a rutura mais estrutural entre a esquerda tradicional Marxista e esta nova esquerda burguesa e libertária. A esquerda libertária aprendeu a conviver com o capitalismo. Tem iPhone, vai de férias e tem propriedade. Esta, é, sem dúvida, a maior vitória do sistema capitalista: conseguiu adaptar-se ao ponto de garantir que nenhuma revolução é mais atraente que o mercado. A esquerda pode argumentar que “vivemos numa sociedade, é normal que consuma”; não é por viver numa sociedade que um indivíduo é obrigado a padronizar os comportamentos. A direita reacionária acredita que o trabalhador se deve submeter ao estado e ao empregador, deixando de lado qualquer tipo de luta de classes ou defesa dos direitos laborais. Por outro lado, o conservador acredita que a luta de classes é um conceito falhado porque não é o que os trabalhadores querem; os trabalhadores querem melhores condições, não o controlo das fábricas, e quem defende que os trabalhadores devem ter controlo das fábricas são as elites urbanas da nova esquerda, que escolhem ignorar as provas de sucesso do capitalismo na melhoria da vida de todos, e preferem destruí-lo ao invés de melhorá-lo.

Agora que já abordamos um pouco a visão do conservador tendo em conta as diferenças destes dois modelos antagónicos, façamos uma reflexão sobre a visão conservadora quando comparada com as semelhanças entre direita reacionária e esquerda libertária.

Antiliberalismo:

Uma das características comuns tanto à direita reacionária como à esquerda libertária é o antiliberalismo. Um ódio ao regime liberal, que defende as liberdades individuais e os direitos Humanos. Ambos os apoiantes dos dois modelos consideram que o modelo da democracia liberal é contra o estado, entidade que eles consideram superior. O conservador vê no modelo liberal um aliado, no sentido em que o indivíduo é sempre o centro dos interesses do conservador.

Populismo:

Outra característica tanto da direita reacionária como da esquerda libertária é o populismo. Estes modelos usam as emoções do povo e apelam aos sentimentos mais primitivos do ser Humano para conseguir a simpatia do mesmo. Propostas demagogas e um discurso fácil, marcado por promessas e uma contraposição entre as elites e o povo/trabalhadores/oprimidos, dos quais esses políticos dizem fazer parte, são a idiossincrasia tanto da direita reacionária como da esquerda libertária. O conservador, pelo contrário, é considerado elitista por não ser populista. É comum que se uma coisa não é algo, é exatamente o seu contrário. O que é ridículo. O conservador não é populista por ser elitista; o conservador simplesmente tem a noção de que o populismo não é a forma correta de se fazer política.

Findo com este tema, desejando a todos uma excelente prisão domiciliária (ou confinamento, em linguagem politicamente correta) e esperando que estejam todos da melhor forma possível.

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